Teresinha
O primeiro me chegou
Como quem vem do florista:
Trouxe um bicho de pelúcia,
Trouxe um broche de ametista.
Me contou suas viagens
E as vantagens que ele tinha.
Me mostrou o seu relógio;
Me chamava de rainha.
Me encontrou tão desarmada,
Que tocou meu coração,
Mas não me negava nada
E, assustada, eu disse "não".
O segundo me chegou
Como quem chega do bar:
Trouxe um litro de aguardente
Tão amarga de tragar.
Indagou o meu passado
E cheirou minha comida.
Vasculhou minha gaveta;
Me chamava de perdida.
Me encontrou tão desarmada,
Que arranhou meu coração,
Mas não me entregava nada
E, assustada, eu disse "não".
O terceiro me chegou
Como quem chega do nada:
Ele não me trouxe nada,
Também nada perguntou.
Mal sei como ele se chama,
Mas entendo o que ele quer!
Se deitou na minha cama
E me chama de mulher.
Foi chegando sorrateiro
E antes que eu dissesse não,
Se instalou feito posseiro
Dentro do meu coração.
Amor é o que lhe assalta. Ele saca fundamentalmente suas fraquezas, suas dores, suas culpas. O amor chega onde mais dói. Chega nos seus medos e ali ele se instala, pois é lá seu lugar. Onde falta amor sobra medo, sobra receio, sobra insegurança. A função do amor é tornar-te mais belo, é tornar o mundo mais belo, o amor é busca e a manutenção da virtude na vida – NO MÍNIMO - dos amantes.
Qualquer outra coisa que tenta te expor nas suas dúvidas e caídas nem de longe e amor. Essa fala não é fala de amor. É fala de quem diz “eu preciso de amor”, “me dê amor”. Isso é justamente o contrário.
Portanto, coração, o amor é aquilo que doa, que entrega e deixa livre. O que pede, o que retém e o que prende, pede, quer reter e prender amor, o amor que não é capaz de oferecer.
Original de Outubro de 2010.
"O amor tem a capacidade de fazer os pedaços despedaçados voltarem a ser inteiros." Pe. Fábio de Melo
Meu bem, olha pra mim. Olha pra você. Veja só o que aconteceu com gente. Veja só o que fez comigo. Veja o que eu fiz com você.
Eu te contei uma história tão feia, eu falei uma mentira enorme, eu te enganei tanto.
Eu disse que não sairia pelo mundo magoando ninguém. E veja só que imediatamente você foi a primeira vítima desse meu coração egoísta desacostumado com sentimento. Coração prepotente que acha que sabe de tudo, foi ele que errou muito e feio.
Eu falei também que não acreditava nas palavras, e nas minhas você não deve mesmo acreditar. Provavelmente a única coisa sincera que posso te falar é desculpa.
Olhe bem pra mim, veja o quão inápta eu sou pra cuidar de carencias. Eu
sei fazer uma equação, um resumo, uma dissertação. Eu sei usar a mente,
mas tudo que aprendi de coração foi a escondê-lo
Desculpa que pelo meu medo de sofrer eu lhe cause sofrimento. Desculpa pela minha prudência egoísta, desculpa por te iludir, por te amedrontar, por não cuidar de você.
Hoje eu percebi de verdade que ele se foi. E é por isso que não lhe escrevo mais uma carta, nem sequer um bilhete. Nosso contato foi cortado. Pra sempre.
Hoje eu senti que não há mais nada que me prenda. Não há nada que restrinja minha liberdade, meu ser.
Hoje eu aprendi que há um tipo de solidão interna que não será acabada com a presença de um outro ou de muitos outros. Ela não se acaba. Ela é transcendida se eu percebo que essa solidão simplesmente não existe.
Hoje de uma vez por todas eu entendi que amor é estado de espírito. Amor é atenção, é carinho, é cuidado que a gente oferece para o próprio coração e deixa de esperar que venha de fora, que venha do outro.
"Até que num momento de abertura, depois de muito cansaço, depois de muito doer, , depois de muita busca, sobretudo, a gente descobre, contente que nem criança diante de novidade, onde o amor estava o tempo todo. Onde estava a chave. Onde estava o alimento. Começamos a dedicar carinho e delicadeza a nós mesmos, aqueles que pensávamos que podiam vir somente dos outros. Começamos a ser também a mãe e o pai de nós mesmos, e também os filhos, os enamorados, os amigos, os benfazejos. Descobrimos que o interruptor que faz a vida acender esteve o tempo inteiro no nosso próprio coração. Esteve o tempo inteiro ao nosso alcance, muitíssimo mais do que para qualquer outra pessoa do planeta. Descobrimos que a capacidade de sentir amor é nossa. Nada, ninguém, poderá roubá-la, influenciá-la, desdizê-la ou responsabilizar-se por ela. O que nos cabe é cultivá-la. O que nos cabe é aprimorá-la.
Começamos a caminhar a partir da fonte inesgotável de amor que já nos habita. Que é a nossa essência. Que independe de outros, que são preciosos, sim, e muito, mas para enriquecer a nossa passagem pelo mundo. Para trocarmos aprendizado e entusiasmo. Para brincarmos juntos. Para partilharmos afeto. Para partilharmos também as dores que, invariavelmente, nos visitam. Começamos a caminhar, enfim, a partir do amor que é essa matéria-prima disponível em nós, que permeia tudo o que podemos criar, agora, com a nossa existência. Começamos a querer somar com a nossa contribuição, seja lá qual for, porque quando a gente começa a se amar começa também a sentir que dar é o primeiro jeito de recebimento. A vontade de fazer o amor circular é tão genuína, é tão natural, que a gente quer molhar a vida inteira nesse oceano amoroso, sabedores de que somos parte dele.
Continuamos a querer ser amados, é claro. Amados com o charme que flui. Com o olhar que abençoa. Com a atenção que enleva. Com a intimidade que ri. Mas o amor que vem dos outros não é mais salvação, a única chance de felicidade, o tapa-buracos, o paliativo para a carência que o afastamento de nós mesmos nos provoca. Não é mais remédio, fórmula, chá milagroso ou coisa que o valha; não é mais parâmetro medidor do nosso valor. É uma dádiva. É mais um espelho que reflete a nossa própria capacidade de viver um amor que inclui. Um amor que canta. Um amor que é gentil. Um amor que é paciente. Um amor que sabe perdoar quando é preciso. Um amor que cuida, porque o cuidado é da natureza dele. Um amor que é grande e que abraça com calor e sem pressa. Um amor que, generoso, nos respeita e nos acolhe, com tranquilidade, do jeitinho que a gente é. Um amor que acredita na gente com fé. Com frescor. Com alegria. Às vezes, circunstancialmente, com um bocado de desafio também. Mas, principalmente, um amor que não sabe o que é esforço." (Ana Jácomo)
Este é o nosso destino: amor sem conta, distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas, doação ilimitada a uma completa ingratidão, e na concha vazia do amor a procura medrosa, paciente, de mais e mais amor Amar a nossa mesma falta de amor, e na secura nossa, amar a água implícita, e o beijo tácito e a sede infinita.
Houve um tempo em que a amargura e angustia significavam a minha vida. Os maiores dos meus esforços de superação eram nada diante disso. Mas, quando eu estava a ponto de desistir e me entregar, você chegou causando conflito, me desestabilizando. Mostrou-me todo o mal, e, mais, como superá-lo. Tudo isso de repente, sutil, delicado, em fração de olhares, em palavras que não foram ditas. Re-significou a minha vida: fez brotar amor em meu coração. E, hoje, me deparo com o inédito: uma fé inabalável na vida, fé sua, que se tornou minha.
25 de janeiro de 2010
Amar talvez seja isso...
Descobrir o que o outro fala mesmo
quando ele não diz. Pe. Fábio de Melo
Você me levou ao infortúnio de confiar nas pessoas e, como se não bastasse, provocou inesperado ainda pior, me fez confiar em mim mesma.
7 de março de 2010
Há pessoas que nos roubam...
Há pessoas que nos devolvem! Pe. Fábio de Melo
Sonhei com um dia em que você me pediria um porque de eu o merecer. Poderia dizer todas minhas qualidades, dotes e vocações. Mas, de verdade, talvez eu não tenha nada de bom, nada de belo, nada de verdadeiro. Tudo que tenho é este amor, o qual justifica a minha vida, minha fé, meu sorriso. E é só. Nada além deste amor, que nem meu era, ganhei de ti, meu bem.
14 de março de 2010
"As pessoas acham que alma gêmea é o encaixe perfeito, mas a verdadeira alma gêmea é um espelho, a pessoa que mostra tudo que está prendendo você, a pessoa que chama atenção para você mesmo para que você possa mudar sua vida. Uma verdadeira alma gêmea é provavelmente a pessoa mais importante que você vai conhecer, porque elas derrubam suas paredes e te acordam com um tapa. Mas viver com uma alma gêmea para sempre? Não. Dói demais. As almas gêmeas só entram na sua vida para revelar a você uma outra camada de você mesmo, e depois vão embora". Trecho do livro Comer, rezar e amar.
Meu amor, você veio, soprou amor bem no meio do meu peito e se foi.
Viver o que é ao certo não sei, mas sei que não é ser super-herói, santo ou mártir. É verdade que o capitalismo é uma sanguessuga de trabalhadores, que tem muita gente doente, tem muita gente com fome, tem muita gente desabrigada... Mas lembre-se também de quantas pessoas estão de barriga cheia, espalhadas no sofá vendo fantástico e de coração frio, seco... porque não mataram sua sede de carinho, a fome de atenção.
Sou tua amiga cheia de segundas intenções, se eu te escrevo essa carta, se escuto seus celeumas e se me sirvo de colo pra você é porque eu tento matar sua carência de atenção, de amor, de cuidado e ainda mais por que eu espero que você faça o mesmo por mim e por muitas outras pessoas. Porque meu desejo é que o mundo seja um jardim de sorrisos e eu começo sorrindo uma flor pra você, mesmo que você seja meio póia, meio sem noção e mesmo que você quase coloque meus segredos no rádio.
Mais do que eu, tem Deus que te ama independente de qualquer coisa, é importante te lembrar que é precisamente este tipo de amor nossa única e primeira obrigação nessa vida: amar desmerecidamente. Primeiro este amor, minha amiga.... por você e pelas outras pessoas. Só depois disso você poderá sair por ai mantando fomes literalmente, levantando bandeira contra o capitalismo, o desmatamento, a poluição e a pobreza. Mas antes... pare de chorar, arruma a maquiagem, o cabelo e abra um sorriso, não só no rosto, no coração mesmo.
“E a História humana não se desenrola apenas nos campos de batalha e nos gabinetes presidenciais. Ela se desenrola também nos quintais, entre plantas e galinhas, nas ruas de subúrbios, nas casas de jogos, nos prostíbulos, nos colégios, nas usinas, nos namoros de esquina.” Ferreira Gullar
Minha amiga, que tanta afobação é essa? Se acalme, você não tem que salvar o mundo ainda esta noite... nem durante tua vida toda... não, ela não é para isso. Basta que salve a si mesma, e poupe, assim, a mim e a sua mãe de tanta chorumela. A vida, minha amiga, não é tão misteriosa como parece, mistério mesmo é sua simplicidade.
Ai vai um mini manual da vida: Quando acordar de manhã não se apurinhe achando que tem que acabar com a fome no mundo, primeiro tome seu café tranqüila, ria da cara inchada de sono de seu irmão, beije a sua mãe e só. Se arrume, vá trabalhar e ria como bem sabe fazer para suas crianças. Volte pra casa, almoce, xingue pela bagunça da casa e durma no sofá assistindo sessão da tarde. À noite na igreja não precisa prestar atenção em tudo que o pastor diz... olhe para os lados, pisque pros gatinhos, que Deus não liga pra essas paqueradinhas. Essa rotina toda e esse ser sendo já cansa tanto a gente e você ai pensando em perfeição. Aff... dá preguiça só de pensar.
Tudo bem que sei que você é uma pessoa boa, que se incomoda com as injustiças do mundo, e isso é uma grande qualidade, a mais bonita, provavelmente, mas não vale morrer pelos outros (não dessa forma), não se ajuda ninguém assim. Se algum dia eu tiver triste e puder chorar no teu ombro terá matado minha fome de colo, se um dia sorrir despretensiosamente a um desconhecido terá matado a fome dele de simpatia. Ame um ou muitos alguéns e terás matado a carência de afeto de muito mais gente...
Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.
Uma amiga me disse que você precisa saber o que sinto. Mas acho que não. Você precisa mesmo é sentir o mesmo. Vendo você simplesmente responder automaticamente e, pior, educadamente (!), a mim, como se oferecesse o que eu, supostamente, espero me angustia. O que espero e o que de verdade desejo é que você, meu amor, possa, como me fez poder, ser autônomo, individualizado, possa saber quem é e sê-lo livre. Ou, pelo menos, não me dê nada que não lhe sirva.
Não me interessa que me agrade, que me considere. Me importa que aja com o seu coração. Feliz estarei se passar por mim e não falar, se assim for da sua vontade, melhor me sentirei se tudo que fizeres for do fundo do teu coração. Por favor, não me corresponda simplesmente por educação. Esse seu muito é muito pouco pra mim. Eu recuso.
Ano novo bate na porta, e antes de ir, quero me desfazer de muita coisa. Todo o desdém, a insegurança, as coisas toscas, as pretensões heróicas, as (pseudo)fugas cotidianas, e muita quinquilharia eu quero deixar pra trás. De tudo isso que me atrasou, que me vendou os olhos e tapou a boca eu quero estar livre. Em contrapartida, a você meu amor, eu quero me agarrar. Porque você me fez conhecer o mundo do alto, me levou a mais alta estrela para admirar os mistérios que envolvem este mundo. Fez-me ser livre, ignorando minhas convicções, visões, princípios e valores. Foste tu que mostraste que não há liberdade maior que uma vida com amor.
Estas são as cartas que eu não tive coragem de te mandar. Mas elas são suas, surgiram quando você, meu amor, me invadia. Quando, sem cerimônia,desaguou na minha vida e levou-me de mim mesma revelando quem sou.